quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Ninaterapia


Eu queria ter parto normal, mas sentia que podia acabar fazendo uma cesárea. Nas consultas com meu obstetra, principalmente quando estava sozinha, sentia que a cesárea era a sua preferência. E esse sentimento aumentou muito quando vi a taxa de cesáreas dele em um plano de saúde: 100%. Durante um tempo, cogitei escolher outro médico, mas como não queria viver essa tensão, preferi deixar quieto e não criar tantas expectativas para um parto normal. Outro desejo meu era amamentar. O meu marido queria até que eu fizesse um curso para amamentação e eu não quis, pois pensava que não teria problema com isso e preferia procurar ajuda depois, caso fosse necessário. Li bastante sobre partos e amamentação. Estava bem informada e preparei uma lista de perguntas para minha última consulta do pré-natal, para que eu pudesse garantir um parto humanizado e que eu conseguisse amamentar.



Em relação aos exames de rotina, o meu pré-natal foi tranquilo. Não engordei muito, minha pressão estava ótima, meu nível de glicose também. As únicas coisas que me deixaram um pouco preocupada foram uma íngua que apareceu na axila e um carocinho que surgiu na mama, ambos do lado esquerdo. Porém, na consulta, o médico me tranquilizou, dizendo que a íngua era tecido mamário e que o carocinho era algo comum em mulheres grávidas. Mas para desencargo de consciência, ele achou melhor pedir uma ultra mamária e isso aconteceu lá para o sétimo mês de gestação.

Chá da Nina

Quando senti o "carocinho"

Enrolei para fazer o exame e deixei para fazer um pouco antes da última consulta do pré-natal. Era uma quarta-feira e essa ultra acabou bagunçando todos os meus planos: eu teria que continuar investigando o nódulo, pois havia alguma chance de ser cancerígeno. Na sexta-feira, na consulta do pré-natal que serviria para eu tirar dúvidas sobre o parto, o médico solicitou uma biópsia (que consegui marcar para o sábado) e me encaminhou a um oncologista, para que me ajudasse a decidir se seguiria ou não sua orientação: a de fazer a cesárea no dia seguinte da biópsia, no domingo, interrompendo imediatamente a lactação. Essa sexta foi especialmente longa e tensa. Com a ajuda do meu marido, meus pais, familiares e amigos, conversei com diferentes mastologistas e decidi que não seguiria a orientação do meu obstetra. Decidimos que esperaríamos o resultado da biópsia, para fazer ou não a cesárea, e, independente do resultado, não iria interromper a lactação. E, assim, para acelerar esse processo, levamos o material colhido na biópsia para um patologista particular (pelo plano poderia levar uns 15 dias).

Uma semana após a ultra, em uma quarta-feira, fiquei sabendo o resultado da biópsia. O mastologista que me contou e explicou o resultado do exame, a partir deste dia, passou a me acompanhar no tratamento contra um tumor maligno na mama esquerda. Neste dia marcamos com meu obstetra a cesárea para o dia seguinte.

Um pouco antes de ir para a maternidade
Dia 13 de agosto de 2015







E em um 13 de agosto, com 39 semanas completas, nasce a Nina, e, apesar do “pequeno imprevisto”, o dia foi animado e muito especial. Nada poderia atrapalhar esse momento e vivi o parto e o puerpério da melhor forma que pude. Felizmente consegui amamentar a Nina durante os primeiros 15 dias, enquanto não começava a quimioterapia. Foram dias intensos, com dor na cabeça e coluna, por conta da anestesia do parto, e dificuldades típicas dessa fase somadas às dificuldades do começo de um tratamento de um câncer. Mas com o apoio do meu marido, da minha família, de amigos e, principalmente, com a Nina, meus dias se tornaram mais fáceis. Nada aconteceu conforme o planejado. Nada mesmo. Foram muitas frustações e angústias; foram dias e meses de caos físico, mental e emocional. Mas eu dei o meu máximo à Nina, dei o meu amor a ela e esse amor e a nossa relação fizeram do câncer um problema menos importante e mais fácil de ser superado.






A Nina hoje tem 1 ano e 3 meses. Durante esse tempo, fiz 16 sessões de quimioterapia, uma mastectomia bilateral (com reconstrução imediata), 25 sessões de radioterapia, tratamento hormonal e incontáveis sessões de Ninaterapia. Minha vida ainda não entrou totalmente nos eixos e continuo em tratamento, mas estou bem e sou extremamente grata a todos que me apoiaram e que me acompanharam nesse período, especialmente à Nina.  😍😍


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Quem é a Nina?

A Super Cholita

Ficamos muito preocupados com o futuro dos nossos filhos. E fazemos altos planos para eles, pensando com frequência em suas possíveis profissões. Talvez não tracemos metas tão tradicionais e queremos que eles ao menos fujam da mediocridade que a nossa vida se tornou. Queremos que eles sejam um dia a melhor pessoa que eles possam ser. Queremos que eles se desenvolvam integralmente enquanto seres humanos; que eles sejam futuramente uma pessoa repleta de habilidades (as quais não possuímos) (matemática, literária, corporal, musical, artística, criativa, social, emocional...) e que eles consigam se tornar autônomos financeiramente. Temos as melhores das intenções e projetamos neles, com todo nosso amor e cuidado, nossas infinitas expectativas, e acabamos, de tanto olhar para os nossos futuros filhos, esquecendo dos nossos filhos do presente. Com o objetivo de garantir um lugar ao sol para eles no futuro, nos dedicamos todos os dias, mais e mais. 

Com essa preocupação, nos esforçamos para ganhar mais dinheiro, afinal, os nossos gastos aumentam muito. Precisamos pagar uma boa escola, precisamos colocá-los em cursos, precisamos dar os melhores brinquedos, precisamos dar as melhores roupas, os melhores objetos, as melhores festas... Precisamos dar o melhor, para que eles se tornem os melhores. Sem nos darmos conta, com as melhores das intenções, entramos em uma lógica competitiva, vaidosa e consumista. 

Ficamos, com frequência, comparando os nossos filhos (desde bebês), nos comparando enquanto mães, julgando e criticando os outros pais, muitas vezes para nos autoafirmar (porque, com tanta pressão, como não ficarmos inseguras?). A falha dos nossos filhos representa muitas vezes a nossa falha enquanto pais, e o seu sucesso, o nosso sucesso. Queremos o sucesso, queremos ser pais competentes, então, com esse objetivo em mente, nos empenhamos desde sempre. Formar "super-humanos" pode fazer de nós "super-pais" e, para isso, tentamos "estimular" os nossos filhos. Acreditando que brinquedos estimulam, compramos muitos deles, desde muito cedo.

Na nossa saga frenética por fazer do nosso filho a melhor pessoa, freneticamente trabalhamos, freneticamente estimulamos (através dos brinquedos e eletrônicos), freneticamente compramos (o melhor enxoval, o melhor quarto, o melhor móbile, o melhor pote, termômetro, sugador de meleca, pomada de assadura, fralda, etc, etc.). Mas, com isso, o que não conseguimos fazer é enxergar os nossos filhos como são e curtir a vida com eles.

Afinal, quem são os nossos filhos e como podemos aproveitar a vida com eles hoje?

Os nossos filhos querem viver a vida, querem curtir, brincar, e querem a nossa presença, a nossa atenção; querem compartilhar essa vida com a gente. Os nossos filhos não precisam de muitos objetos, brinquedos e cursos para se desenvolveram; eles precisam ser felizes hoje, ao nosso lado. E precisam ser respeitados enquanto sujeitos (não são nossa posse, nosso troféu, nosso projeto) e que a gente tente vê-los como são.

Quer melhor brinquedo do que este super secador de saladas? 

A Nina vai cumprir 1 ano e 3 meses no dia 13 e ela tem me ensinado muitas coisas nesse pouco e intenso tempo de vida. Essa reflexão surgiu por causa dela e de nossas brincadeiras. Por estar de licença do trabalho, por conta de um câncer de mama, estou tendo a feliz e rara oportunidade de ficar muito com ela. Quando eu voltar a trabalhar, isso vai mudar, mas esse tempo desacelerado juntas me ensinou algo muito valioso que tentarei levar sempre comigo, em sua criação. Eu e seu pai somos responsáveis por ela e participaremos ativamente de sua educação, porém, ela já está aí e é e será (com o nosso apoio) a autora principal de sua vida.      





segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Cholita

Os cholitos da Cholita

Nós chamamos a Nina também de cholita. Cholita (o) é o diminutivo de chola (o), que é a mistura do índio e o branco em alguns países da América Latina. Dependendo do contexto, o termo pode ser considerado pejorativo ou carinhoso. Aqui em casa, é puro amor, e muito antes da chegada da Nina!

A Nina é uma misturinha de uma brasileira e um peruano e, por isso, está sendo criada, desde sempre, nas duas culturas. Desde a barriga, ela conversa com o papai em espanhol, ouve e dança músicas peruanas (e de outros países hermanos) e (claro) come comida peruana também.

Ela é um bebê "intercultural" e essa vai ser, naturalmente, uma marca da sua criação!